Teolatria

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sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

ESTAMOS LIVRES DO MAL?


Um certo incômodo surge quando ouvimos dizer que algum crente fiel a Deus morreu de acidente (exemplo David Wilkerson e os pastores batistas de Rondônia), ou quando ficamos sabendo de uma pessoa consagrada a Deus que ficou enferma, vindo a falecer, ou ainda se temos a informação de um cristão de verdade que está passando necessidades.

Aprendemos que com Jesus no barco tudo vai muito bem, que as dificuldades têm seu fim quando aceitamos a Cristo, que o anjo do Senhor nos livra de todo mal, inclusive que esse anjo está ao nosso redor e o diabo ao "derredor" (que, segundo as informações que se dão por aí é que "derredor" significa "ao redor do redor" e com isso concluem que "nós estamos no meio, o anjo do Senhor ao nosso redor e o diabo ao redor do anjo! Para nos atingir, o diabo deveria passar primeiro pelo anjo do Senhor!), que a Bíblia diz que o justo não mendigará o pão, etc. Ouvimos dizer até que essa coisa de morrer por doença, acidente ou homicídio, é coisa pra macumbeiro, maçom, pessoas que praticam o ocultismo, mas crente mesmo não morre assim.

Tenho que informar, entretanto, que não é bem assim. Embora no Antigo Testamento a prosperidade e longevidade eram uns dos sinais de que Deus abençoava alguém, do Novo Testamento pra cá a versão da bênção de Deus sobre alguém é bem diferente! Observe que o próprio Filho de Deus foi assassinado! Tudo bem que era esse o propósito, mas continue olhando e veja que Seus apóstolos (exceto João) morreram da forma mais cruel possível. Alguém pode dizer que morrer por martírio é uma glória e constitui-se numa exceção, mas a verdade é que a morte, seja ela de que modo for, não representa o estado de espiritualidade de um crente, pois ela é apenas o passaporte do crente para a vida eterna. A Bíblia tem o propósito de nos instruir para o caminho da eternidade com Cristo e, por isso, geralmente aponta os "heróis" e mártires como modelos a serem imitados pelos cristãos de todos os tempos. Mas quando a Bíblia trata da vida de algumas pessoas cuja morte não foi por martírio, nós conseguimos ver que nem todos tiveram o privilégio da longevidade, saúde ou prosperidade. Nem todos tiveram seu quadro revertido, como foi o caso de Jó. Aliás, por falar em Jó, o que ouvimos por aí sobre ele é que, assim como Deus reverteu a sorte de Jó, também fará com aquele que for fiel e obediente a Ele. Então, o que dizer dos casos não revertidos?

A teologia dos amigos de Jó é contínua e parece não perder o sentido em nossos dias, muito embora Deus mesmo a tenha condenado desde aquela época. O simplismo com que se responde a casos diferentes do de Jó é notável pela falta de profundidade bíblica de alguns pregadores de hoje. Resumem o motivo da desgraça de alguém a dois fatores principais: ou não tem fé, ou está em pecado. Simples, não? Se eu orar por um paralítico, por exemplo, e ele não se levantar e sair andando perante todos os presentes, pra eu não ficar com minha reputação manchada, então eu jogo sobre o pobre enfermo a responsabilidade de nada ter acontecido: "Ora, este não andou porque não tem fé"! Outras vezes procura-se a explicação para certas enfermidades ou acidentes no pecado: "Tal pessoa está enferma, ou sofreu aquele acidente porque cometeu pecado". Não nego que alguns casos realmente tenham essa explicação (ver Jo 5.14). Só que isso não se aplica a todos os casos. Eliseu, por exemplo morreu de uma certa enfermidade (provavelmente câncer) e nem por isso estava em pecado (2Re 13.14,20). Epafrodito, amigo e companheiro de Paulo, certa ocasião foi acometido de uma doença mortal (Fp 2.27) e Paulo, mesmo com o dom de curas, nada pôde fazer por aquele amado irmão, a não ser esperar que Deus tivesse misericórdia dele. Do mesmo modo com Timóteo, que tinha frequentes enfermidades e um problema de estômago, ao qual Paulo aconselhou (provavelmente por orientação de Lucas, o médico) que de vez em quando misturasse um pouco de vinho na água para tomar, a fim de purificar a água de Éfeso, que segundo alguns não era tão potável (1Tm 5.23). Nenhum deles foi acusado de incredulidade. Claro é, porém, que em certos casos, a cura não acontece por incredulidade mesmo (Mt 13.58). Não que Deus dependa da fé para fazer milagres, mas que Ele opta por não fazer para nos dar uma lição de que, ao nos aproximarmos dEle, que seja com fé.

A chamada teologia da prosperidade ensina que não vemos um justo passar por necessidades. Mas o que dizer de muitos missionários que estão no campo e, muitas vezes sem o sustento que as igrejas que os enviaram prometeram? Será que não passam necessidades? Veja aqui o desafio que um pastor no sertão do Ceará fez aos tele-pregadores da prosperidade. Não é isso o que diz a Bíblia. Usar a afirmação do Salmo 37.25 fora de seu contexto é um pretexto para o engano. Não se pode interpretar o v. 25 sem levar em conta os vs. 16 e 24 por exemplo, que mostram que os justos também passam por dificuldades. O conceito de justo no Antigo Testamento é diferente do conceito neotestamentário. Para os salmistas e profetas o conceito de justiça é quase sempre acompanhado da expressão "o direito" (Sl 33.5; Jr 22.15), ou seja, a retidão no julgamento, também a retidão no proceder, agindo de acordo com a lei de Deus. Então, torna-se claro que ao reclamarem o direito dos justos, os profetas estavam apenas reivindicando que se cumprisse sobre os justos o que Deus mesmo havia prometido aos que obedecessem Sua lei (Lv 26.3-13; Dt 28.1-14). Já no Novo Testamento, apesar dos escritores terem o conceito judaico impregnado em suas mentes, uma revelação maior aconteceu ao termo. A justiça passa a ter significado forense substitutivo, em outras palavras, a fé substitui o pecado do crente pela justiça de Cristo nele. Justo não é apenas o que anda em retidão para com o próximo e para com a lei de Deus, mas aquele que, mesmo ímpio e gentio achega-se a Cristo pela fé. Sem lei, ele passa a ser justificado, considerado justo por Deus, visto que creu no Seu Filho (Rm 3.21,22). Portanto, a conclusão de Paulo é que ao justo não ocorre a condenação (Rm 8.1). Mas ele não está isento das aflições deste mundo, dos males do dia-a-dia. O próprio apóstolo dá testemunho de que ele mesmo fora afligido por tais flagelos (Fp 4.12,13).

Que se conclui então? Que o crente não está livre das mazelas do cotidiano, pois o mundo ficou sujeito ao pecado por causa de Adão (Rm 8.20-22) e os males que nos acometem são fruto disso. Enquanto estivermos no mundo seremos afligidos pelos males que estão no mundo (Jo 16.33). Eles têm também sobre nós uma função pedagógica. Deus Se utiliza dos males que nos acometem para nos ensinar, para nos trabalhar, nos modelar e nos amadurecer, a fim de que sejamos aperfeiçoados ao padrão do Seu Filho. Praticamente toda a vida de Cristo sobre a terra foi de sofrimento, por isso não devemos estranhar que eles também nos atinjam, isto é, se quisermos realmente ser parecidos com Ele (1Pe 4.12,13).

Mas Jesus não orou ao Pai que nos livrasse do mal? Por que então somos atingidos por ele? Sim, Jesus não somente orou por nós para que fôssemos livres do mal (Jo 17.15), como também nos ensinou a orar pedindo ao Pai que nos livrasse do mal (Mt 6.13). Todavia, precisamos saber que as palavras gregas traduzidas por "mal" têm conotação diferente umas das outras. Nestas duas últimas referências citadas, a palavra grega é ponērós e refere-se ao mal personificado, ou seja o maligno. Podemos, portanto estar certos de que o maligno realmente não nos toca (ao que é nascido de novo - 1Jo 5.18), pois Jesus orou para que Deus nos livrasse dele. Mas Jesus não orou para que Deus nos livrasse do kakós, ou kakía, que no grego quer dizer mal físico, males da existência, infortúnio. Até pelo contrário, Jesus disse que devemos nos preocupar com o reino de Deus e Sua justiça, pois basta a cada dia o seu próprio mal (kakía - Mt 6.33,34). Estes males seguirão o seu curso junto com o mundo em que vivemos, de sorte que também em algumas ocasiões estaremos sujeitos aos seus efeitos enquanto estivermos no mundo.

Porém, chegará um dia em que não mais existirá nem o mal personalizado, nem o mal cotidiano! Derrotado e condenado para sempre o autor do pecado que trouxe males ao mundo, viveremos uma eternidade sem ponērós e  sem kakós. Até chegar esse dia, devemos viver cada dia na expectativa, mas também na consciência de que Deus não é obrigado a nos livrar das intempéries desta vida pós-queda. Ele nos livra do maligno, mas nos livrará dos males do cotidiano, apenas quando Ele quiser!


Dia tēs písteōs

Pr. Cleilson

2 comentários:

  1. Muito bom esse artigo Pastor Cleilson.Nós cristãos precisamos entender de uma vez por todas que o mais importante não é estamos isentos do mal físico, e sim vivermos afastados da vida de pecado que nos distancia de Deus.É com isso que devemos nos preocupar.

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  2. Esse texto nos propõem uma situação muito interessante: a liberdade. A liberdade do "explicacionismo" dos amigos de Jó que condena e atribui toda a responsabilidade a vítima. O Senhor é imprevisivelmente fiel. Ele não está e não se condiciona à maneira redutiva dos nossos pensamentos. O mal (kakós), embora com todas as sua mazelas tem finalidades de nos responsabilizar, disciplinar e amadurecer. Nos responsabilizar é uma postura para amadurecimento.
    Pr. Cleilson, obrigado por mais este texto, iluminado pelo Espirito, que, mais do que uma cura ou livramento, nos proporciona paz e aceitação do Deus imprevisível, porém fiel.

    Forte abraço!
    Pr. Wellington Miguel
    Esmeraldas

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